Bom, eu sou Alice, tenho 20 anos, moro em São Paulo. Me mudei a pouco tempo pra essa cidade, meu pai recebeu uma oferta de trabalho irresistível e tivemos que vir pra cá. Sou a caçula de três irmãos e filha de pai solteiro e com a nossa nova casa grande a minha avó veio morar conosco. Confesso que eu fiquei um tanto aliviada com essa mudança, íamos conhecer pessoas novas, lugares diferentes... Eu estava mesmo é entusiasmada com essa novidade, adoro mudanças e sem contar que eu estava com uma espécie de ressaca do lugar onde morávamos.
Passaram-se alguns dias depois de nossa mudança e a vida era morna e estava tudo na mesma. Eu passava a maior parte do tempo em casa ajudando a vovó, olhando a vida pela janela e esperando o tempo passar. Em uma tarde a minha avó ela me disse que era muito importante falar tudo aquilo que pensamos ou sentimos e que não devemos deixar nada para depois. Eu não tinha entendido porque ela tinha me falado isso e nem como a nossa conversa tinha chego até ali. Mas logo pensei que a minha vida era muito corrida e eu não queria perder tempo falando tudo o que sinto ou penso. Além de ser total perda de tempo eu achava o mundo cruel demais para eu abrir a guarda assim. Até que um dia eu cheguei em casa e tínhamos uma visita na sala, era um amigo do meu pai que morava próximo de nossa casa, ele me oferecerá um emprego em sua biblioteca e mal ele terminou o convite eu já gritei um sim, com um sorriso enorme no rosto. No outro dia acordei bem cedinho, me arrumei e fui para a biblioteca e assim se fez. Chegando lá eu logo ocupei meu posto de atendente/secretaria/organizadora/leitora.
E assim se passaram algumas semanas e eu estava sentada próximo ao balcão lendo e percebi que um rapaz me observava, confesso que tomei um susto, mas logo fui acalmada por sua beleza instigante, seus olhos cor de mel e seus cabelos um tanto comprido. Paralisei e logo me dei conta que ele tinha percebido algo, não sei o que, só sei que ele me ofereceu um sorriso torto, colocou um livro sobre a mesa e disse que era para a devolução. E com a voz tremula eu o perguntei se ele gostaria de levar outro livro e ele disse que não, se virou e foi embora. Os dias se passaram e nada do rapaz voltar por lá, isso só afirmava a minha tese do quanto eu era um desastre humano. Mas o impressionante era o quanto eu não conseguia esquecer aquele sorriso, aquele rosto. Minhas noites em claro se resumiam em pensar nele, isso me assustava, como posso ver alguém uma vez na vida e ficar assim? Como alguém pode possuir consigo mesmo o poder de atrair o outro? Nada me responder isso, nem o silencio da madrugada.
No dia seguinte eu estava arrumando as prateleiras de livros e ele chegou lindo e radiante, debruçou-se sobre o balcão e me pediu uma palpitei de qual seria o próximo livro que ele iria ler. Eu quase cai da escada e perguntei gaguejando o seu gênero preferido. Ele sorriu e disse que estava querendo ler um romance, eu rodei toda a biblioteca na procura de um livro perfeito para o cara perfeito. Até que achei ‘’Diário de uma Paixão’’, coloquei sobre o balcão, ele pegou o livro analisou e me perguntou se eu já tinha lido. Eu respondi que sim, ele se se sentou à mesa e por ali ficou horas a fio lendo o romance e eu fiquei atrás do balcão observando cada movimento dele, cada suspiro. E assim os dias se passaram, e todos os dias ele estava lá pontualmente às 14h. Sentava-se com um livro e um café e passava as tardes ali. Era uma espécie de companhia pra mim, mesmo em silencio era grande a sua presença.
O tempo foi passando e ele tornará voltar, mas agora o silencio dava lugar para grandes e longas conversas. Passaram-se meses e estávamos nos tornando grandes amigos e a companhia dele ia muito além da biblioteca, passávamos o dia inteiro juntos. Até que um dia na sacada de sua varanda ele me disse o quanto estava gostando de mim, pousou sua mão sobre o meu rosto e me deu um beijo. Naquele dia ele me disse tantas coisas lindas, me deu uma carta, um beijo, um abraço e preencheu toda a minha falta de afeto. Eu como de costume não declarei todos os meus sentimentos, digo eu correspondi em todos os momentos, mas eu não disse com a minha própria voz o quanto eu o amava, o quanto ele tinha me dado vida, me dado sentido. Ele tinha me transformado em uma nova pessoa, uma nova Alice. Ao lado dele nada era igual, era como viajar no próprio lugar, era como ser transportado ao um universo de amor, aonde mais nada me importava.
No outro dia eu o esperei ansiosamente na biblioteca, mas ele não apareceu. Eu ligava e ninguém atendia, chamava na casa dele, mas ninguém estava por lá e assim se foi. Passou uma semana e depois de tanta procura chegou uma senhora na biblioteca dizendo ser tia dele, mandou eu me sentar, segurou a minha mão e me disse que ele estava muito doente, ele tinha leucemia e nos últimos dias se sentiu mal e não resistiu, ele havia partido.Sem entender que não se passava de uma metáfora e sim uma verdade eu fiz varias interrogações e ela me disse apenas que antes dele fechar os olhos, ele contou sobre mim e que antes de partir ele tinha me escrito uma carta, ela retirou um envelope brando da bolsa e eu mal conseguia ler. Naquele momento eu perdi meu chão, meu mundo, eu não sabia mais de nada, não querer saber de nada, só dele. Entrei no carro de sua tia e ela me deixou no cemitério, em frente ao seu sepulcro, eu agachei, o vento veio forte, eu senti a sua presença comigo e eu li no envelope da carta a seguinte frase ‘’Eu nunca te deixarei minha doce Alice, nem na eternidade’’.
Os meses se passaram tudo tinha se tornando monótono novamente e mesmo assim eu lia todas as suas cartas, via as nossas fotos e depois de muito amadurecimento que eu pude entender o porquê dele não ter me contado a sua doença, percebi que ele queria esquecer pelo menos que por alguns instantes o que lhe fazia infeliz. Entendi que eu era a sua calma e que ele só queria descansar a fadiga de uma vida cruel em um amor puro. Sorri quando me lembrei de todas as nossas brincadeiras, mas logo chorei quando notei que nunca, nunca eu disse com minhas próprias bocas o quanto eu o amava. Fiquei profundamente arrependida e me lembrei dos conselhos da vovó ‘ Não deixe nada pra depois, diga tudo que pensa e que sente agora’’.
Eu errei profundamente, nosso ultimo encontro era sua despedida, era a vida me dando a chance de ser eu. Agora se foi, acabou. Mas o que me conforta é que no fundo ele sabia de tudo, sempre soube, desde o nosso primeiro encontro. O nome dele era Miguel Sohan, ele tinha 20 anos. Sofreu de leucemia, mas amou a vida como ninguém, me amou como ninguém. Miguel jamais murmurou os seus problemas, ele realmente soube viver. Ele foi e sempre será meu grande amor. Eu nunca serei capaz de entender tudo o que aconteceu, foi rápido, intenso, mas acima de tudo foi amor.


Poxa, muito legal! ;)
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